Neurose e Psicose

Nome: Maria do Carmo Ferraz

Cidade: Barreiras - BA

Formação: Psicanálise

Tema: Neurose e Psicose

INTRODUÇÃO

O termo neurose refere-se a uma afecção psicogênica e os sintomas são expressão simbólica de um conflito psíquico que tem raízes na história infantil do sujeito e constitui compromissos entre desejo e a defesa (LAPLANCHE E PONTALIS, 2001). Classificação das neuroses: a neurose obsessiva, a neurose fóbica e a histeria.

As psiconeuroses transferenciais obsessiva, fóbica e histeria ocorrem em função do ato do ego recusar-se a aceitar um poderoso impulso instintual do id, ou ajudá-lo a encontrar um escoador ou motor, ou de o ego proibir aquele impulso ao objeto que visa. Logo, o ego busca a defesa contra o impulso instintual utilizando o mecanismo da repressão. Ocorre que o material reprimido não se conforma e trava uma batalha contra esse destino, ocasionando o sintoma que corresponde a uma representação substitutiva. A luta reativa do ego, que segue as ordens do superego, provoca a neurose, pois, a sua unidade encontra-se ameaçada e prejudicada por esse intruso. A serviço do superego e da realidade o ego encontra-se em conflito com o id. O ego põe a repressão em movimento contra a parte do id interessada e fortifica a repressão por meio da anticatexia da resistência. As psiconeuroses nascem do conflito entre exigências instintivas e forças defensivas do ego.

Conforme Laplanche e Pontalis (2001), a neurose obsessiva foi definida por Freud como sendo um dos quadros da clínica psicanalítica. As principais características desse conflito psíquico ou sintomas compulsivos são: ideias obsedantes, compulsão à realizar atos indesejados, luta contra esses pensamentos e essas tendências, ritos conjuratórios, entre outros. Sendo assim, o modo de pensar é caracterizado particularmente por ruminação mental, dúvida, escrúpulos, o que leva a inibições do pensamento e da ação.

As neuroses fóbicas são caracterizadas pelo medo ou ameaça de morte quando se vivencia com determinados objetos e situações que não apresentam perigos reais, o que representa um temperamento ansioso e hipersensível. Há uma projeção para fora do estímulo da angústia provocando a necessidade de segurança, bem com a fuga.

Segundo Rondinesco e Plon (1998) a histeria é o campo mais amplo da psicanálise, como também o mais próximo do que convencionalmente se considera normalidade. O termo histeria é derivado da palavra grega Rystera (matriz, útero). A histeria é uma neurose caracterizada por quadros clínicos variados. Sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos inconscientes se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, por meio de sintomas corporais paroxísticos (ataques ou convulsões de aparência epiléptica) ou duradouros (paralisias, contraturas, cegueira). As duas principais formas de histeria teorizadas por Freud foram a histeria de angústia, cujo sintoma central é a fobia e a histeria de conversão, nas quais se exprimem através do corpo representações sexuais recalcadas.

Para Zimermam (2001), na atualidade, à medida que escasseiam cada vez mais as histerias com sintomas dramáticos dos primeiros tempos de Freud, em proporção inversa, abundam os escritos a respeito dos transtornos da personalidade histérica.

Conforme Násio (1991), o sofrimento, hoje, das histéricas de outrora que caíram de moda, se oferece sob outras faces, outras formas clínicas mais discretas e menos espetaculares. O histérico do final do século XIX e o histérico moderno vivem, cada qual, à sua maneira, um sofrimento diferente, mas a explicação que a psicanálise propõe para dar conta da causa desses sofrimentos não variou. A teoria psicanalítica, por certo, transformou-se singularmente desde seus primórdios, mas sua concepção no que se refere à origem da histeria continua fundamentalmente inalterada.

A sociedade pós-moderna, capitalista, competitiva e individualista, com suas demandas, urgências, tecnologias, globalização, prazos e limites tende a exigir do indivíduo muito mais do que poderia oferecer em termos de equilíbrio emocional para atender às suas necessidades de sobrevivência e bem-estar.

Para Zimerman (2001), desde Freud até os dias atuais, mudanças importantes aconteceram na ciência da psicanálise e na psiquiatria do ponto de vista da compreensão genético-dinâmica e aumento da complexidade nosológica, inclusive citadas nas modernas classificações diagnósticas, como o CID10 e o DSMIV.

Diante do contexto exposto e considerando a importância do estudo das psiconeuroses de transferência para a psicanálise e a sociedade atual, faz-se necessário um maior aprofundamento de sua teoria.

Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho consiste em analisar as psiconeuroses de transferência por meio de uma revisão bibliográfica.

Ao fazer um trabalho de pesquisa bibliográfica, que se refere a um tema de tamanha relevância, espera-se contribuir para um maior esclarecimento, entendimento e conhecimento da psicanálise e sua aplicabilidade na clínica psicológica.

Este trabalho compõe-se de quatro capítulos. O primeiro faz uma retrospectiva histórica com relação ao desenvolvimento da psicanálise e alguns de seus conceitos fundamentais da teoria freudiana e de estudos psicanalíticos. O segundo aborda o conceito e os tipos de neurose, destacando a visão de teóricos da psicanálise. O capítulo terceiro, trata do conceito, tipos e considerações acerca do funcionamento e tratamento da histeria. No quarto e último capítulo é retratada a metodologia utilizada na pesquisa.

CAPÍTULO I - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-CONCEITUAL DA NEUROSE

A primeira experiência de ansiedade pela qual passa um indivíduo (no caso de seres humanos, seja como for) é o nascimento, e, objetivamente falando, o nascimento é uma separação da mãe.

(Freud 1925-1926).

  • FREUD E A PSICANÁLISE

Na França, no século XIX, no fervor do positivismo, uma corrente filosófica e sociológica que valoriza a ciência e o seu desenvolvimento como um avanço para a humanidade, desenvolve-se: é a psicanálise que está associada ao pensamento de Freud e aos seus estudos com relação à dissociação da consciência Etchegoyen (2004) afirma que:

Tanto a teoria de Breuer quanto a de Freud são psicológicas com relação à dissociação da consciência, em contraposição à explicação de Janet que remete a explicação à labilidade da síntese psíquica, um fato neurofisiológico, constitucional, baseado na teoria da degeneração mental de Morel (p.21).

O autor acrescenta que a hipótese de Freud, a teoria de Trauma, já era puramente psicológica e foi a que definitivamente os fatos empíricos apoiaram. “Freud defendia a origem traumática da dissociação da consciência: era o próprio acontecimento que, por sua índole, tornava-se rechaçável da e pela consciência” (ETCHEGOYEN, 2004, p.21).

Freud define psicanálise como “um processo pelo qual trazemos o material mental reprimido para a consciência do paciente.” Freud (V. XVII p. 173). É difícil conhecer a si mesmo sem ter conhecimento do processo inconsciente, dos impulsos reprimidos que nele existem. A resistência dificulta esse conhecimento.

De acordo com Zimerman (1999), a psicanálise contemporânea ou vincular destaca a importância significativa a vários aspectos de plano consciente. Necessário se faz, na visão Bion citado por Zimerman (1999, p 193), uma percepção da comunicação entre o consciente, o pré-consciente e o inconsciente.

Segundo Etchegoyen (2004), no princípio, a técnica desenvolvida por Freud foi à coerção associativa, confirmando o esquecimento das coisas quando são dolorosas, feias e desagradáveis, contrariando a ética e/ou a estética. Para ele existia uma força contrária à recordação, a resistência. A partir daí, leva a uma nova técnica, a associação livre como regra fundamental da psicanálise e a interpretação como instrumento técnico importante. A psicanálise é constituída da associação livre como a técnica psicanalítica, a transferência, sendo a interpretação um instrumento da técnica.

A técnica da coerção associativa foi substituída pela da associação livre. Isso por que:

Em suas experiências Freud descobriu que o inconsciente condiciona as barreiras à livre associação, constituindo-se numa resistência involuntária, ou uma repressão daquilo que estava proibido de ser lembrado, como os traumas sexuais e também os que provocaram as fantasias referidas (ZIMERMAN, 1999, p.23).

Para o autor, forças instintivas e repressoras em um processo dialético provocam o conflito psíquico. Sendo os sintomas a representação simbólica desse conflito inconsciente. “Esta concepção inaugura a psicanálise como uma nova ciência, com referenciais teórico-técnicos próprios, específicos e consistentes” (ZIMERMAN, 1999, p. 23).

A modificação da personalidade pode ocorrer dentro de uma visão psicanalista se o indivíduo tem um conhecimento de si próprio. Etchegoyen diz que o grande achado de Freud consiste em que, descobrindo determinadas situações (trauma, recordações ou conflitos) “os sintomas da doença modificam-se a personalidade enriquece-se, amplia-se e reorganiza-se” (2004, p. 23).

A teoria do trauma desenvolvida por Freud consiste na concepção segundo a qual quando há uma repressão da energia psíquica proveniente da libido, ou seja, manifestação psicologia do instinto sexual que não consegue ser liberada provoca as neuroses, como a histeria, a neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia ou fobia, segundo Laplanche e Pontalis (2001):

Do ponto de vista econômico, Freud postula a existência de uma energia única nas vicissitudes da pulsão sexual: a libido. Do ponto de viste dinâmico, Freud vê na pulsão sexual um pólo necessariamente presente do conflito psíquico: é o objeto privilegiado do recalcamento no inconsciente. (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p. 403).

Zimerman (1999), considerando que o conflito psíquico era consequência das repressões determinadas pelos traumas de sedução sexual ocorridos no passado, à cura só ocorria com as lembranças desses fatos. Assim, “lembrar o que estava esquecido”. Ocorre que há uma resistência inconsciente a estas lembranças, cabendo ao analista valer-se da associação livre para interpretar esse fenômeno. O retorno do referido correspondente à transferência.

No que se refere à Teoria Topográfica, segundo Zimernan (1999), Freud considerando a teoria do trauma insuficiente para a explicação das neuroses desenvolve a teoria da divisão da mente em três lugares sendo eles: consciente, pré-consciente e inconsciente. Desse modo, seria fundamental no processo psicanalítico tornar consciente o que for do inconsciente.

Nessa concepção o aparelho psíquico seria constituído de sistemas diferenciados e específicos em uma determinada ordem uns em relação aos outros, corresponderia à primeira tópica freudiana (LAPLANCHE E PONTATIS, 2001).

A Teoria Estrutural é caracterizada por três componentes da psique humana sendo eles: id, ego e superego, constituindo a segunda tópica do aparelho psíquico. O inconsciente corresponde a uma instância psíquica ou id.

Segundo Zimerman (1999), “o qual é considerado o pólo psicobiológico da personalidade, fundamentalmente constituído pelas pulsões”. Correspondendo a toda fonte de energia psíquica, sendo regido pelo princípio do prazer, ou seja, pelo processo primário.

O autor ressalta, também, que do ponto de vista da dinâmica psíquica, ele abriga e interage com as funções do ego e com os objetos, tanto da realidade exterior, como aqueles que, introjectados, estão habitando o superego, com os quais quase sempre entra em conflito, porém não raramente, o id estabelece alguma forma de aliança e conclui com o superego.

Na segunda tópica o conceito do ego é desenvolvido distintamente do id e do superego. O ego é mediado pelo id e pelo superego não tendo uma total, mas relativa autonomia em relação às duas citadas instâncias.

Do ponto de vista dinâmico, o ego representa eminentemente, no conflito neurótico, o pólo defensivo da personalidade; põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, estes motivados pela percepção de um afeto desagradável (sinal de angústia). Do ponto de vista econômico, o ego surge com um fator de ligação dos processos psíquicos, mas, nas operações defensivas, as tentativas de ligação da energia pulsional são contaminadas pelas características que especificam o processo primário: assumem um aspecto compulsivo, repetitivo, de real (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p. 124).

Dois registros segundo Laplanche e Pontalis (2001), explicam a sua gênese sendo um aparelho adaptativo, diferente do id em contato com a realidade exterior. Ele é também produto de identificações que levam à formação no seio da pessoa de um objeto investido pelo id.

Quando o ego não tem condições de processar um excesso de estímulos, reprime-os surgindo a ansiedade, podendo ser elas: angústia automática e angústia de sinal. “As ansiedades são reduzidas a partir das operações mentais como os mecanismos de defesa, sendo inconscientes e processados pelo ego” (ZIMERMAM cita FREUD, 2001, p. 127).

Conforme Hall e Lindzey (1984), o ego obedece ao princípio de realidade e opera por meio do processo secundário correspondendo ao pensamento realista. O ego é o executivo da personalidade “porque controla as portas de entrada para a ação, seleciona os aspectos do meio aos quais reagirá e decidem quais são os instintos a serem satisfeitos e de que modo” (p.27).

Freud no seu artigo referente a uma neurose infantil e outros trabalhos (1917 – 1918), chama atenção para o fato de que o paciente neurótico ao procurar o tratamento analítico apresenta a “mente dilacerada, dividida por resistências”. Com relação ao ego ele afirma:

À medida que analisamos e eliminamos as resistências, ela se unifica; a grande unidade a que chamamos ego, ajusta-se a todos os impulsos instintuais que haviam sido expelidos (Split off) e separados deste. A psicossíntese é, desse modo, atingida durante o tratamento analítico sem a nossa intervenção, automática e inevitavelmente. (FREUD, 1996, p.175).

O ego é pressionado pelos impulsos instintuais ou pulsão e tenta se adaptar às exigências do princípio de prazer com o da realidade. A singularidade do psíquico é única. O ego é construído a partir das experiências e tensões tanto interna como externa. Daí a complexidade do aparelho psíquico (FREUD, vol. XVII, 1996, p. 175).

Freud, no volume XVII, quando aborda no texto uma dificuldade no caminho da psicanálise afirma que:

O ego, em função do inconsciente, não tem total controle desses processos em função de suas percepções incompletas e de pouca confiança e afirma que “o ego não é o senhor da sua própria casa”. Ele destaca que não temos controle sobre nossos instintos sexuais no sentido de serem totalmente dominados. Freud afirma que: “O que está em sua mente não coincide com aquilo de que você está consciente; o que acontece realmente é aquilo que você sabe, são duas coisas distintas” (FREUD, vol. XVII, p. 152).

Dessa forma, os estudos de Freud apontam para o dinâmico processo da passagem do narcisismo para o amor objetal. Fonte da libido fica retida no ego. É do ego de onde flui a libido para os objetos e para o qual regressa, saindo dos objetos. “A libido do ego passa a ser a objetal e pode retornar ao ego. Para a efetiva sanidade, essa mobilidade é essencial” (Vol. XVII, p. 149).

Segundo a visão freudiana, o narcisismo está fundamentado na tese de que no início do desenvolvimento do indivíduo, toda sua libido está vinculada a si mesmo. Para satisfazer as suas necessidades vitais, a libido flui do ego para os objetos externos. Entretanto, quando a libido está retida no ego ocorre o narcisismo. (FREUD, Vol. XVII, p. 148).

O superego está em sintonia com as regras morais, valores, crenças estabelecidas no grupo social do qual o indivíduo participa. Assim, o ego tem que se adaptar as essas exigências, às regras e normas, ou seja, a consciência coletiva vai se incorporar à estrutura psíquica, constituindo o superego. O superego representa os valores socioculturais do indivíduo e o ID representa a herança biológica que, em determinados momentos, entrarão em contradição em decorrência das demandas biológicas e as imposições constituídas pelo grupo social. O Ego tem o papel fundamental de buscar o equilíbrio entre as demandas irracionais do ID e as normas e valores impostos pelo grupo constituindo o superego.

A estrutura psíquica formada dessas três partes precisa ser considerada de forma interligada, pois são interdependentes. Nessa perspectiva, a mente funciona por meio da liberação de energia para que haja a interação na sua estrutura psíquica. A libido corresponde a uma espécie de energia cujo objetivo é a auto preservação e a perpetuação das espécies. Essa energia é considerada positiva.

Segundo D’Andrea (2006), a fonte primária de energia mental é o ID, cujos impulsos dependem de especificas condições físico-químicas do organismo. No funcionamento da personalidade, essa energia é empregada na obtenção de diversos fins, imediatos ou não.

No texto de Freud (1920), “além do princípio de prazer,” ele afirma que o princípio do prazer media os processos psíquicos. Utilizando o termo ponto de vista econômico, para fazer referencia à dinâmica da pulsão desprazer e prazer que constituem os processos psíquicos. A psique tenta amenizar a tensão valendo-se da sublimação para evitar o desprazer e gerar o prazer constituindo, assim, o ponto de vista econômico, afirma:

Em psicanálise, relacionamos prazer e desprazer com a quantidade de excitação presente na vida psíquica-quantidade que de alguma maneira não está presa [gebunden], de modo que nessa relação o desprazer corresponderia a um aumento, e o prazer, a uma diminuição dessa quantidade (FREUD, 1920, p. 136).

Não há o domínio do principio de prazer nos processos psíquicos apesar da sua tendência. Outras forças atuam em oposição a esse desejo. Freud (1920) denominou de primário o funcionamento primitivo do aparelho psíquico. Na luta pela sobrevivência do principio do prazer é substituído pelo da realidade. Uma acomodação das pulsões de autoconservação do Eu, equilibra o prazer pela realidade. O prazer é objetivo também do princípio da realidade. As pulsões sexuais estão a serviço do principio de prazer dentro dessa visão econômica. Quando a pulsão de prazer quando não podem se manifestar é recalcada. “todo desprazer neurótico é desta espécie: um prazer que não pode ser sentido como tal” (FREUD, 1920, p. 138).

De acordo com Freud (1920), neurose de transferência refere-se à recordação do passado recalcado, relacionado à vida sexual infantil, com o complexo de Édipo, transformado em uma neurose que agora passa ser denominada neurose de transferência. Refere-se a reviver parte de sua vida pretérita e esquecida. Para ele, o analisando segundo deve reconhecer o reflexo de um passado esquecido e aquilo que apresenta realidade. “O Eu provoca a resistência no analisando e o pré-consciente corresponderia a uma pequena parte do Eu. O recalcado inconsciente provoca a compulsão à repetição” (p. 138). Assim sendo:

Não há dúvida de que a resistência consciente e pré-consciente do Eu esteja a serviço de prazer, pois ela procura evitar o desprazer que seria provocado pela liberação do recalcado. Durante o tratamento, nosso empenho é evocar o principio de realidade para conseguir que o material recalcado possa manifestar-se (FREUD, 1920, p. 145).

Portanto, a transferência refere-se à repetição e um reviver, pelo analisando, das ocasiões não desejadas e as situações afetivas sofridas na vida do paciente. Ainda segundo Freud (1920), a transferência não é exclusiva das pessoas neuróticas. As pessoas não-neuróticas podem desenvolver a compulsão à repetição. “na vida psíquica há uma tendência à repetição que ultrapassa o principio de prazer” (p. 148). Essa tendência ocorre nas brincadeiras infantis e nos sonhos especialmente na neurose traumática.

Conforme a teoria freudiana o inconsciente não tem tempo que o determine. Assim, os traumas que perturbam a economia energética do organismo ativam o mecanismo de defesa, sendo que o principio de prazer é desativado, ocorrendo a qualquer tempo o retorno do recalcado por meio da compulsão à repetição.

Ainda em Freud, os sonhos também obedecem à compulsão à repetição quando relacionados aos traumas. Assim, nem todo sonho equivaleria à realização de desejo.

Vale ressaltar também que o princípio do prazer é submetido à compulsão a repetir na transferência os fatos ocorridos na infância da vida do analisando. Freud (1920) define pulsão como uma força impelente, interna ao organismo vivo que visa a restabelecer um estado anterior que o individuo precisou deixar de lado em função de “forças perturbadoras externas” (1920 p. 160).

Dentro desta visão conceitual a elasticidade orgânica permite a influência de pulsões. Existe uma luta contraditória entre as pulsões do Eu, a de morte e a de vida ou sexuais. Classifica duas pulsões: a de vida e a de morte, caracterizando a ambivalência do ser humano.

Com relação à definição da libido, Freud (1920) relaciona a energia das pulsões sexuais objetivando objetos.

A libido quando retirada do objeto e sendo investida no Eu caracteriza o narcisismo, que pode ser primário e secundário. Eu sendo o reservatório da libido faz também uso dos objetos sexuais, na medida em que não só reserva pulsões sexuais bem como de outras agindo no seu interior. O principio do prazer não controla todos os processos psíquicos outros processos atuam (FREUD, 1920, p.273 ).

O sistema perceptivo-cognitivo se manifesta no plano consciente embora com influência do inconsciente. Segundo Zimerman (1999, p. 125), “a percepção, pensamento, conhecimento, juízo crítico, inteligência, discriminação, memória, atenção, capacidade para antecipação e postergação, linguagem, comunicação, abstração, síntese e atividade motora são funções com a participação consciente do ego.” A percepção se refere não só como o indivíduo percebe o mundo exterior e a possível intenção dos outros, é importante destacar “a visualização de como o indivíduo percebe a si próprio, a sua imagem corporal, as suas representações e o seu sentimento de identidade”. Bion (apud ZIMERMAN, 1999, p. 125), afirma que a percepção de cada sujeito depende do “vértice psicanalítico” no processo de análise, assim: cada sujeito adota um vértice particular de percepção e pretende que a mesma seja a verdade absoluta. Creio que o poeta Campoamor pode explicar melhor nesse seu verso: “Nem tudo é verdade. Nem tudo é mentira; tudo depende; do cristal com que se mira” (ZIMERMAN, 1999, p. 125).

Portanto, conforme Zimerman (1999), a normalidade e a patologia da função perceptiva do ego tem uma importância fundamental no processo analítico. É importante destacar: o indivíduo se percebe e percebe o mundo ao seu redor, bem como suas representações e sentido de realidade.

O pensamento tem também uma importância fundamental na medida em que pode ocorrer o pensar com o pensamento do outro, contra o pensamento do outro, contra a si próprio, uma circularidade estéril, ou em favor de si próprio. Pensar implica estabelecer confrontos e correlações entre uma ideia e outra, entre fatos presentes e passados, ponderação e capacidade para aprender com os erros e acertos.

A articulação de vários juízos corresponde à função de raciocínio. A articulação e discriminação dos diversos pensamentos distintos implicam no juízo crítico. Entre as funções do ego destaca-se a capacidade de síntese. Zimerman (1999), coloca a questão de novos “arranjos combinatórios” a partir do juntar e integrar os mesmos elementos que estão sendo pensados na perspectiva de um novo significado. Simbolizar significados opostos depende da capacidade de síntese do ego.

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